Um novo céu, uma nova terra, 2019 #1

new heaven, new earth, 2019

The project is a construction of what would be a new heaven and new earth described in the revelation of the Apostle John in the penultimate chapter of Apocalypse (21: 1-27).

“And I saw a new heaven and a new earth: for the first heaven and the first earth were gone” (Revelation 21: 1)

For this, I have investigated the past and recycled images, music and texts from a period in my life when I was still trying to understand the meaning of heaven, and “what would you do Earth in heaven”?  
Then, I found several images of Switzerland as an indication of the new paradise. And I began to think about this imaginary construction around the idea of a paradise that is not my own country.

Publicado por Elen Braga em Domingo, 4 de agosto de 2019

@Maurice Meewisse, Schwarzsee, Switzerland, 2019 – frame of the vídeo “Um novo céu, uma nova terra 2#, 2019 -Participation:
Katinka Van Gorkum, Sina Seifee and Maurice Meewisse

Paraíso tropical 
Conheci Elen Braga em 2012. Uma das primeiras vezes que a vi, tive que levá-la ao hospital após um incidente durante uma performance. Presenciei o tranco que tirou o joelho da artista do lugar, e acompanhei à distância o processo de cirurgia, recuperação e trabalho de força para que pudesse voltar a realizar ações que desafiam seu corpo. Depois daquele episódio, seus projetos tornaram-se ainda mais desafiadores, tendo como ápice a série “Os 12 Trabalhos”. Braga colocava seus limites à prova enfrentando o vento, carregando 200kg, correndo no deserto e expondo-se imóvel ao sol por horas a fio, realizando tarefas hercúleos em paisagens inóspitas e condições arriscadas. Em paralelo, intensificaram-se e desdobraram-se outras pesquisas igualmente (ou mais) potentes e árduas, sempre extrapolando os limiares físicos e de sentido, em projetos baseados em esportes de combate, exercícios de força e na sujeição do corpo às provas mais absurdas, lidando com conceitos de resistência, passagem do tempo, exagero e absurdo. Todo esse corpo de produção, no entanto, não revela de imediato as origens da relação da artista com a performance – tanto como desempenho, quanto como linguagem artística visual. 

Em tempos mais recentes, contudo, Braga tem implicado de maneira mais evidente aspectos auto-biográficos que pautam a pesquisa e produção de suas obras, sem abandonar a constante atenção às possibilidades expandidas do corpo como ferramenta de ações performáticas, sempre pondo à prova sua própria carne. Sua infância e adolescência inserida no contexto das igrejas protestantes e a atuação como cantora gospel, além da relação com o pai e a família, tem servido como gatilho para trabalhos como Mkv, de 2018 – um triciclo construído do zero pela artista a partir da lembrança de seu pai construindo a própria motocicleta em sua cidade natal. The Plane, realizada em março de 2019, foi uma instalação construída e operada em parceria com seu pai – genitor e progênita tentando fazer voar uma estrutura de metal que construíram juntos. 

Agora, Elen Braga busca encarar de frente seu passado, discutindo de maneira direta as lembranças de seu passado religioso. “Um Novo Céu, Uma Nova Terra” é uma grande investigação sobre o que seria o paraíso celestial: imagem idílica de paisagem europeia apresentada aos fiéis de igrejas evangélicas como terra prometida, futuro ou garantia divina. Se o clichê “a religião é o ópio do povo” marcou o século XIX, e o multiculturalismo foi a pauta do século XX, nós – neste início de século XXI – temos ainda uma grande dificuldade de lidar com as simultâneas contradições e coincidências entre o proclamado éden e as paisagens tropicais ao nosso alcance, entre o paraíso destinado apenas aos justos e nossos próprios corpos desejantes e errantes, entre uma história de inquisições e guerras e um presente de intolerância generalizada e descrença.

A partir dessas imagens paradoxais, a exposição – que segue a realização da performance de mesmo título realizada algumas semanas antes, na qual a artista contava histórias sobre o profético jardim-do-éden-destino propagandeado nos cultos e missas – busca dar corpo a este nem-tão-novo céu. A obra é composta por diversos elementos: uma série de fotos que trazem a própria artista em gestos de temor ou adoração, desafiando a leitura de suas posturas em narrativas igualmente bem-humoradas, críticas e nostálgicas; um canhão de confete produzido pela própria artista, na melhor tradição do it yourself; projeções de Braga em canto, pousada sobre palavras de ordem frequentemente usadas em louvor e liturgia; e, como elemento central, uma imagem registrada nas pradarias da Suíça. O letreiro, que mais parece um anúncio de empreendimento imobiliário, foi carregado pela artista através de fronteiras e oceanos, e chegou ao Brasil anunciando a vinda do paraíso. Mas o contraste não nos passa desapercebido: nos deparamos com uma imagem idílica do que é o paraíso celestial, para depois lembrar que esse céu pregado e difundido não coincide em nada com a nossa dura realidade.”
Julia Lima, Setembro de 2019